A iniciativa de Brittany Maynard, doente terminal oncológica que decidiu pôr termo à vida, inflamou o debate sobre a aceitabilidade legal e moral do ato, sendo que o grande dilema se prende no quão moral e legal é a eutanásia.

Parece-me que uma grande parte do debate é gerada por um aspeto que é importante clarificar em termos da ciência psicológica: qual é a diferença entre a eutanásia e o suicídio?

O Suicídio

O paciente suicida descreve tipicamente o sofrimento centrado numa perspetiva afetiva. Seja pela tristeza face ao sentimento de falhanço generalizado na própria vida, mas também por outros fatores frequentemente esquecidos, que são o desespero por sentir que não tem uma personalidade suficientemente forte e capaz para transformar o estado atual da vida. Desta conclusão também lhe surgem sentimentos de revolta e raiva contra o mundo e contra o próprio. Esta situação tende a deixar as pessoas num estado em que se sentem presas à sua própria insuficiência e inferioridade.

No decorrer da vida, fruto de um acumular de situações em que a pessoa acumula tristeza e raiva, pode haver um momento em que a libertação desta prisão que é a insuficiência acontece num ataque à vida através do ato suicida.

desespero por sentir que não tem uma personalidade suficientemente forte e capaz para transformar o estado atual da vida

É portanto um sofrimento em que a queixa é generalizada e não é gerada por nenhum aspeto em particular, mas por aspetos difusos em várias áreas da vida: “não consigo ter quem goste de mim”, “a vida não vale nada”, etc… [ep_highlight type=”red” bgcolor=”” color=””]É o conflito entre o sentimento de impotência e desilusão com as consequentes exigências da vida que causa o sofrimento interno.[/ep_highlight]

– A Eutanásia

Embora o paciente que pretende eutanásia descreva a vida com palavras semelhantes ao paciente suicida, a natureza das mesmas é diferente.  A causa do seu sofrimento é atribuída uma causa específica, habitualmente um estado físico degradado, ou que para aí caminha devido a uma condição médica incurável que provoca dores físicas insuportáveis. Esta situação também afeta a pessoa emocionalmente, mas como queixa secundária e consequente da doença.

[ep_highlight type=”red” bgcolor=”” color=””]As causas do sofrimento são atribuídas a uma condição interna, uma doença física.[/ep_highlight]

– Suicídio VS Eutanásia

Resumidamente, temos uma diferença essencial entre ambos os pacientes: o suicida apresenta uma queixa de sofrimento emocional de causa generalizada, o paciente que procura eutanásia tem um historial de prazer e até eventual realização, não se queixa das próprias capacidades e potencialidades, mas sim de uma doença física que ameaça com sofrimento físico e, consequente sofrimento emocional. Neste caso, não há uma causa depressiva (sentimentos de perda, falha, etc..), mas sim tristeza pela própria condição humana.

No outro caso, temos pessoas que fazem um balanço positivo de vida, mas que de facto lhes é impossível criar um futuro feliz, porque muito que se esforcem, ou que se esforcem por eles, dado que a doença física supera qualquer esforço.

[ep_highlight type=”red” bgcolor=”” color=””]São atos com motivações de natureza diferente e portanto não comparáveis.[/ep_highlight]

2017-05-13T20:17:15+00:00