Quando os adultos induzem ideais de sucesso aos estudantes, a época dos exames é vivida com uma intensidade que culmina numa desorganização na vida habitual dos jovens, acartando sentimentos de angústia, tristeza e até medo.

Nesta fase, a conversa dos jovens nas consultas de psicologia tende a deslocar-se dos temas mais interessantes para eles (os namoros, o pai que mandou fazer isto, a mãe que não fez aquilo, o amigo que é teimoso…) para o Big Issue: as notas dos exames finais!

O que são os ideais de sucesso que tanto abalam os jovens?

“- Quando fores grande tens de ser o melhor”

É importante que os jovens desenvolvam as suas capacidades e que não fiquem presos à necessidade de replicar as capacidades de outros: aprendo contigo a ser eu próprio e não a ser como tu.

Um elogio no sentido de realçar uma virtude é agradável e construtivo mas, por vezes, esta mensagem origina interpretações desmotivantes nos jovens. O conceito de ‘ser o melhor’ é catastrófico porque estabelece um objetivo idealizado que consequentemente é impossível de atingir: as pessoas têm capacidades que se complementam pelas diferenças, e não por serem melhores ou piores entre elas. ‘Ser o melhor’ induz uma auto-avaliação por comparação e não pela autoconsciência. É importante que os jovens desenvolvam as suas capacidades e que não fiquem presos à necessidade de replicar as capacidades de outros: aprendo contigo a ser eu próprio e não a ser como tu.

Experimente dizer-lhe: “- Estás a esforçar-te muito, assim vais conseguir os teus objetivos!”

“- Como tiveste esta nota tão baixa?”

Quando se faz notar a uma criança que o resultado ficou aquém, e essa apreciação passa por comentários que sobressaem o facto de ‘não ter conseguido’, há uma possibilidade forte da criança sentir que não tem capacidades para cumprir as tarefas que lhe competem, como se tivesse um defeito que faz parte dela. O mesmo sentimento sucede a alguns diagnósticos médicos (hiperactividade, défice de atenção, etc). Como a explicação médica tende a ser direccionada aos pais, dado que os filhos são menores, a mensagem que é percebida pelos adultos nem sempre é a que as crianças entendem: têm experiências e conhecimentos diferentes. É comum os jovens comentarem ” – Tenho andado muito nervoso com os exames, se calhar é da hiperactividade que me faz isto”. É essencial que a criança também seja elucidada quanto à sua situação, de forma a que perceba que “não tem defeito”.

As crianças, principalmente com idades de primeiro ciclo, ainda não têm desenvolvida a capacidade de compreender metáforas ou ideias pouco concretas. A tendência é para uma interpretação literal do que ouvem, o que ocorre com frequência e em diversas circunstâncias. 

Experimente dizer-lhe: “- Desta vez tiveste uma nota que não estavas à espera, mas se te empenhares verás que melhoras!

“- Não está mal, mas se tivesses estudado mais…”

Por vezes pode ser verdade, se tivesse havido mais estudo talvez a nota pudesse ter sido mais elevada, mas valorizar a falha – o bocadinho que faltou para a perfeição -, desvaloriza o sucesso conquistado. Recorrentemente ouço jovens que, perante tantos comentários semelhantes, começam a desenvolver um traço de personalidade que se torna preocupante: a tendência para valorizar o que não se tem e a desvalorização do que se é. Por exemplo, sentir que a profissão que ambicionam não é digna de valor – -“Eu gostava de ser (…), mas se calhar ser médico é que é bom…” – ou, em casos mais graves, sentir que para além seus gostos não serem os mais produtivos, também revelam que eles não têm valor – “- As raparigas só gostam de rapazes que lhes garantam um futuro estável, e com estas notas ninguém vai gostar de mim”.

Experimente dizer-lhe: “- Estás no bom caminho, era a nota que estavas à espera?”

As reacções mais típicas dos adolescentes a este tipo de tratamento passam por:

* Abdicar de todas as actividades que vão além do estudo;

Fixação com as consequências de eventuais notas que não sejam excelentes: ”-Tenho o meu futuro estragado”, “-Não vou conseguir entrar em curso nenhum”, etc.;

* Procrastinação: passam o dia com livros abertos, mas a atenção fica dispersa por coisas que não o estudo. Conciliar o estudo com lazer é saudável, passar o dia disperso entre as duas coisas é que não será proveitoso;

* Medo incontrolável de castigos por parte dos pais;

É natural que os adultos tentem incutir responsabilidade aos jovens, mas essa questão difere de pressão e desvalorização. A maioria das vezes, a pressão que é gerada nos jovens não é com o intuito de dificultar-lhes o trabalho que têm pela frente, mas convém ter-se sempre presente que nem sempre as mensagens são interpretadas com o intuito que se pretende, e nesse sentido convém estar-se atento ao impacto que as palavras “motivantes” têm nos jovens! 

2017-05-13T20:20:40+00:00