Psicofármacos e os Jovens: Pensar para Quê?

Crónica na Mood Magazine

Um estudo europeu conduzido pelo European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs refere que 13% dos jovens em idade escolar consomem psicofármacos sedativos e tranquilizantes com prescrição médica. Os resultados são preocupantes quer pela taxa de consumo, quer por ser decorrente de prescrição médica.

A medicação tem um propósito benéfico quando é utilizada corretamente nas circunstâncias a que se destina. Quando é consumida e prescrita desadequadamente tem efeitos adversos, não só em termos físicos, mas também na construção da personalidade.

É comum encontrar na prática clínica pacientes (jovens e adultos) que tomam medicação prescrita por um médico de família. Embora a boa vontade do médico possa ser bem intencionada, os psicofármacos só devem ser prescritos por médicos psiquiatras e após uma avaliação clínica por um psiquiatra ou psicólogo. Só um médico com especialização em psicofarmacologia tem competência para compreender todas as implicações, físicas e psicológicas, de um psicofármaco. Também só um especialista em saúde mental tem capacidade para fazer a triagem adequada de queixas emocionais, sabendo distinguir o sintoma do problema de base.

A medicação imprecisa de jovens pode ter dois efeitos graves: reforçar o problema e perverter o desenvolvimento da personalidade.

Se os adolescentes não se queixassem de algum tipo de sofrimento emocional seria estranho. Simplesmente porque é uma fase conturbada da vida. Surgem diversas questões importantes sobre a vida, portanto é natural que o primeiro impacto com alguns temas cause ansiedade, tristeza, preocupação, o que seja. É natural, é saudável e é suposto. Também é suposto serem ajudados a pensar sobre as questões que tenham, motivos e soluções.

Os jovens precisam de ajuda para aprenderem a pensar autonomamente nas questões que lhes dizem respeito, não precisam que lhes incutam a ideia perversa de que não é suposto viver sentimentos desagradáveis. Só há um sentimento negativo em sequência de vivências negativas, ninguém sofre por obra do acaso.

Ao mesmo tempo, a sobrevalorização da necessidade da medicação pode incutir nos jovens o sentimento de que não têm uma capacidade interna para aprender a lidar com as dificuldades, e portanto o comprimido é a única solução para amenizar a dor.

Qual é o papel da medicação nesta equação?

A medicação tem, em última instância, uma função estabilizadora do humor. Quer isto dizer que a medicação suaviza a intensidade de sintomas que ameaçam a capacidade de a pessoa se manter funcional no dia a dia. Pode acalmar a pessoa no sentido de ela conseguir pensar nas causas do sofrimento, mas isso só acontecerá caso a pessoa tenha os recursos internos para conseguir pensar no que a angustia. Por exemplo, se um adolescente tem uma autoestima baixa, um sedativo talvez possa ajudá-lo a sentir-me menos ansioso e mais funcional no rendimento académico, mas não vai necessariamente ajudá-lo a perceber porque se sente mal com ele próprio.

A medicação contém os sintomas, mas não amadurece a personalidade, o que só se consegue com um acompanhamento próximo do adolescente na resolução dos problemas.