O seguinte texto é um excerto da conferência, pelo que alguma informação sobre os casos clínicos foi retirada por questões de privacidade, pese embora as descrições não incluam dados pessoais e sejam referentes a casos que já terminaram o acompanhamento clínico. Correndo o risco de que consequentemente a informação pareça redutora, deixo a nota de que a informação aqui exposta não constitui por si só material suficiente para explicar toda a dimensão da temática abordada.

Em primeiro lugar queria situar o contexto da minha abordagem ao tema: embora a minha formação de base seja a psicologia clínica, a minha especialização, e a área em que desenvolvo o meu trabalho é a Psicanálise. Quer isto dizer que a abordagem, embora compatível com o olhar da psiquiatria, não é equivalente. Ainda assim, como a linguagem psiquiátrica é a mais utilizada no discurso quotidiano, vou entrar no tema utilizando os termos psiquiátricos mais comuns.

DESCRIÇÃO GERAL DO TEMA
As abordagens às perturbações da alimentação são frequentemente focadas como “alteração no padrão do comportamento alimentar, do qual decorrem alterações no corpo que provocam sofrimento emocional” – esta condensação de várias definições.

Estas perturbações têm um espetro de gravidade, ou seja, há alterações da hábitos alimentares não são necessariamente patológicos na medida em que condicionam várias áreas da vida da pessoa, como por exemplo crianças obesas que o são devido a uma dieta pouco equilibrada. Embora sejam situações preocupantes, não têm o mesmo carácter do que as perturbações clínicas clássicas.

Eu diria que na  primeira situação o que está em causa é falta de informação, pelo que é possível provocar mudanças de hábitos alimentares com alguma educação nesse sentido, na segunda está uma alteração no funcionamento mental da pessoa.

Para mudar a relação de alguém com o alimento e o alimentar, a questão já requer intervenção especializada.

Embora o termo perturbações alimentares abranja um espectro largo de questões, vou focar-me nas que constituem um tronco comum que abrange a maioria das questões. Vou fazer a descrição dos critérios de diagnóstico segundo a psiquiatria, que são o foco de ação da psicofarmacologia, e de seguida desenvolvo a explicação no sentido da psicanálise:

1) Temos as Perturbações alimentares na infância (DSM):

Perturbação na alimentação, manifestada por fracasso persistente em comer ou mamar adequadamente, com fracasso significativo em ganhar peso ou perda significativa de peso ao longo de pelo menos 1 mês.
O início ocorre antes dos 6 anos de idade.

O sintoma mais frequente é a recusa alimentar associada ou não a outras manifestações.

-Vómitos
-Seletividade dos alimentos
-Birras, etc.

De uma forma geral, todos os bebés passam por pequenas fases com estes sintomas, o que é normal, só se torna problemático se houver uma fixação em algum sintoma.

O bebé é ser pequenino, ansioso, que precisa de um certo conforto, colo, precisa de ser olhado e de se sentir correspondido num sorriso, numa expressão. O alimento e o momento alimentação constituem nesta fase de desenvolvimento uma primeira matriz do que é o ato de alimentação e de uma forma de prazer.

É um momento muito intenso em que se o bebé não for muito refilão e se sentir-se minimamente aconchegado começa a percepcionar o alimento como uma coisa boa e a alimentação um momento agradável – forçar os bebés a comer pode ser contraproducente, por vezes compensa mais a longo prazo ir com mais calma até que o bebé se vá habituando à comida.

Quando os distúrbios surgem em idades mais avançadas, e tipicamente surgem na adolescência temos:

2) Anorexia:

Segundo o DSM, As características essenciais da Anorexia Nervosa são a recusa do indivíduo a manter um peso corporal na faixa normal mínima, um temor intenso de ganhar peso e uma perturbação significativa na percepção da forma ou tamanho do corpo.

Segundo o CID-10, que é o compêndio da OMS, os critérios de diagnóstico (sintomas) são:

1. Recusa em manter o peso dentro ou acima do mínimo normal adequado à idade e à altura; por exemplo, perda de peso, levando à manutenção do peso corporal abaixo de 85% do esperado, ou fracasso em ter o peso esperado durante o período de crescimento, levando a um peso corporal menor que 85% do esperado.
2. Medo intenso do ganho de peso ou de se tornar gordo, mesmo tendo o peso inferior.
3. Perturbação no modo de vivenciar o peso, tamanho ou forma corporais; excessiva influência do peso ou forma corporais na maneira de se auto-avaliar; negação da gravidade do baixo peso.
4. No que diz respeito especificamente às mulheres, a ausência de pelo menos três ciclos menstruais consecutivos, quando é esperado ocorrer o contrário (amenorreia primária ou secundária). Considera-se que uma mulher tem amenorreia se os seus períodos menstruais ocorrem somente após o uso de hormonas; por exemplo, estrogéneo administrado.

3) Bulimia

Segundo os mesmos compêndios pressupõe:

Episódios recorrentes de consumo alimentar compulsivo – episódios bulímicos – tendo as seguintes características:

1. ingestão em pequeno intervalo de tempo (i.e., aproximadamente em duas horas) uma quantidade de comida claramente maior do que a maioria das pessoas comeria no mesmo tempo e nas mesmas circunstâncias; e
2. sensação de perda de controlo sobre o comportamento alimentar durante os episódios (i.e., a sensação da não conseguir parar de comer ou controlar o quê e quanto come).
3. Comportamentos compensatórios inapropriados para prevenir ganho de peso, como vómito auto-induzido, abuso de laxantes, diuréticos ou outras drogas, dieta restrita ou jejum ou, ainda, exercícios vigorosos.
4. Os episódios bulímicos e os comportamentos compensatórios ocorrem, em média, duas vezes por semana, por pelo menos três meses.

É comum encontrarem-se casos em que o paciente anoréxico apresenta episódios de bulimia.

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Esta descrição não está de todo errada, mas há mais elementos em questão, além do problema da alimentação, que é a visão subjetiva que a pessoa tem com o acto de se alimentar e com o alimento – que são coisas separadas.

Uma pessoa que não esteja considerada com este diagnóstico vê na comida alimento, uma coisa que sacia e pode ser mais ou menos saboroso.

Contudo, para uma pessoa que esteja numa situação de perturbação alimentar vivencia mais do que isso na relação com a comida. O mais do que isso explicarei mais à frente.

Para contextualizar estes elementos adicionais, vou introduzir aquilo que do meu ponto de vista psicanalítico é o sofrimento mental e como se origina, de uma forma geral.

#3# Como se estrutura o sofrimento mental

Para elaborar esta ideia vou partir do processo pelo qual se estrutura a mente de uma pessoa, mais especificamente a personalidade que é o que fica afetado na patologia mental – sucintamente é a maneira habitual de agir e de pensar.

Uma premissa básica é a de que o ser humano nasce da relação entre outros dois, e constrói a sua mentalidade, carácter, personalidade, na relação com seres humanos. Somos inevitavelmente seres sociais.

Quer isto dizer que há uma parte do cérebro que contém informação genética que predispõe a criança a perceber a realidade de determinadas formas, mas essa informação de base é altamente condicionada pela relação que tem com as pessoas com quem se vai cruzando ao longo da vida.

As pessoas influenciam-se nas opiniões políticas, gostos musicais, preferências alimentares, etc. A minha opinião se calhar influenciará a vossa, como a dos meus pacientes influencia a minha…

Na dinâmica das influências há sempre vários níveis de comunicação e de pensamento, uns mais claros ou conscientes do que outros.

Vou dar um exemplo:
No outro dia, a conversar com um pai de uma criança eu dizia-lhe que ao brincar com o miúdo tinha percebido que ele tinha muito medo de explorar coisas que não conhecia e que parecia que ele tinha muito medo de que os pais o perdessem.

O pai dizia-me que não sabia por quê, nunca se tinham perdido dele…

Uns dias depois, o pai quando vinha trazer o miúdo à consulta disse-me “Estive a conversar com a minha mulher, e nós apercebemo-nos de que quando ele vai passear nós lhe dizemos imensas vezes: “tem cuidado, não te percas, cuidado com os desconhecidos. Se te perderes faz isto, aquilo aqueloutro…“

Ou seja, havia um primeiro nível de informação que era um procedimento funcional caso acontecesse algum imprevisto. Num segundo nível, havia uma informação latente de perigo em relação ao desconhecido.

Ou por exemplo, brincando um pouco com a questão da alimentação, uma pessoa que foi educada que gordura é formosura e então come porque aprendeu a lição, mas também porque quer agradar quem ensinou a lição.

Ou por outro lado, uma criança que quando era muito pequena era obrigada a comer uma sopa que não queria e depois em adulto não compreende a repulsa por um determinado ingrediente de sopa.

Habitualmente a dimensão cognitiva é mais consciente do que a afetiva, mas estão interligadas. Aliás, a informação que se vai decorando ao longo da vida só é retida se tem algum eco no sujeito – Sapere di cuore, como dizem os Italianos – saber do coração.

Portanto, na construção da personalidade há uma interação entre a biologia e as vivências individuais e relacionais que condicionam o funcionamento mental.

A nível cerebral:

Há neurónios que recebem informação exterior, a processam e a guardam. E há neurónios que processam a informação do interior e a comparam com a exterior. Um ditado que ilustra este processo é o “gato escaldado de água fria tem medo”.

A personalidade tem uma função na vida, que é adaptar o sujeito ao seu meio ambiente através de ferramentas psicológicas – conversa, capacidades físicas, sentimentos, capacidades cognitivas, modelos de avaliação da realidade (por exemplo, este clube é melhor do que o outro, etc).

Das duas uma, ou funcionam de uma forma construtiva, e pode dizer-se que a pessoa tem uma certa dose de felicidade, ou não funcionam, e a vida corre mal e causa sofrimento.

É neste ponto que se gera aquilo que é a patologia mental, doença mental, sofrimento psicológico, o que queiramos chamar.

O ser humano tem tendência natural a procurar a solução para o sofrimento, e os meios e mecanismos que utiliza decorrem das características do que causa sofrimento, e das ferramentas que tem ao dispor para se safar – as tais que arranja pela relação com os outros e depois pela intuição.

Temos então uma triangulação entre personalidade <=> elemento causador de sofrimento – sintomas.

O que define cada perturbação mental depende da fase do desenvolvimento da personalidade em que surgem conflitos, quais são os conflitos e da forma como é feita a gestão dos mesmos (tendo em conta as características de personalidade já existentes).

Há quadros clínicos em que há um grande peso de sintomas, há outros em que há uma maior dispersão de sintomas. Há sintomas que estão presentes em vários quadros clínicos.

Na avaliação de um caso é essencial fazer uma distinção correta entre o que é uma causa e respetivas consequências e não tomar uma pela outra.

Então a perturbação alimentar é uma perturbação em si mesma, ou é um sintoma?

Vou deixar a questão em aberto para que se vá explicando ao longo do discurso e vou entrar concretamente no tema…!

#4# As perturbações Alimentares

Já vimos há pouco que há um número de elementos que caracterizam o diagnóstico, mas o que existe na no discurso dos pacientes para além de um conjunto de sintomas?

Para clarificar a dinâmica interna do funcionamento mental vou apresentar trechos de alguns casos clínicos.

Por questões deontológicas não posso expor muito e portanto a informação pode parecer em pouca quantidade, mas penso que será suficiente para clarificar o necessário.

Caso 1

Rapariga, adolescente
Procurou ajuda porque sempre foi muito ansiosa com os “amores” e tinha um namorado novo e estava muito ansiosa com isso, além de que tinha voltado a perder muito peso e “os pais e os amigos andavam a chatear a cabeça porque não comia como é normal”

Lebra-se de sempre ter sido uma miúda muito introvertida e só teve a primeira menstruação aos 14 anos. Diz que nunca percebeu muito bem a opinião que tinha em relação ao próprio aspecto – “havia momentos em que eu me sentia como uma rapariga normal, outros em que me sentia muito cheia e feia”.

Nunca perdeu muito peso até aos 15 anos, quando se interessou por um rapaz com quem “nunca imaginou que desse”. Ao fim de poucos meses de namoro o rapaz trocou-a por outra rapariga. Passou por uma fase com sinais acentuados em que recusava comer, sentia-se triste e não tinha fome.

Entretanto a tristeza amenizou-se, mas começou a desenvolver uma obsessão por controlar o que comia. Na escola não almoçava e em casa estava sempre a arranjar desculpas para não comer, coisa que os pais viam com maus olhos e tentavam contrariar.

Por volta dos 16 arranjou um namorado de quem não gostava muito, mas ele gostava dela e isso dava-lhe “segurança”.

Sabia que podia contar com ele “para o que fosse preciso”, o que passava principalmente por fazer-lhe companhia quando estava sozinha em casa. Entretanto ele foi para a faculdade e ela não aguentava “ter um namoro à distancia e tinha medo que ele a trocasse”, por isso terminou o namoro.

Durante o período do namoro tinha meses em que retomava algumas refeições, outros recusava alimentar-se. Ao longo da terapia foi-se apercebendo que esses ciclos acompanhavam a segurança que ela sentia na relação – “quando ele estava mais ocupado com as coisas dele não me apetecia comer”

Atualmente tem um namorado há três meses, mas a relação oscilante com a comida mantém-se.

Ao que parece ele gostava do aspecto inicial dela e achava-a bonita, ela respondia que tinha que melhorar, mas o discurso interior dela não era assim tão linear.

“Tenho que ser magra senão fico insuportável. E também é uma questão de hábito, ao final de algum tempo o corpo habitua-se a não sentir fome e não custa nada, até é um alívio, sinto-me bem quando deixo de ter fome. É só uma questão de hábito, a sério!” – portanto no meio do discurso que começou supostamente devido ao namorado, ele não entra!

“Eu gosto muito dele e ele tem muita paciência comigo, mas sempre que estou com ele nunca consigo estar durante muito tempo. Ele trata-me bem, mas às vezes tenho sempre medo que ele deixe de gostar de mim. Se não penso nisso estou bem, mas nos fins de semana quando ele vai à terra sinto-me desnorteada e não consigo comer. Entretenho-me no ginásio, passo lá o dia e nem penso em nada, é muito melhor do que andar a stressar no sofá…

Elementos em causa:
– Elemento comida.

Aspectos na relação com o elemento comida:
Corpo feio, em que feio não é ser gorda, é ter dentro do corpo coisas a mais – não tem a ver com a forma, tem a ver com o conteúdo.
– Tentativa de anular a vontade de comer – anular o desejo.

Vive o desejo do nada – postura masoquista, tirar prazer da insatisfação.

A paciente neste caso condensa na necessidade de controlar a fome, um medo de ser abandonado e um desejo de suporte emocional.

Ela controla a comida e a relação – antes abandonar do que ser abandonada – antes não desejar comer do que sentir fome.

Posto isto, pior que se pode fazer a um anorético é querer alimentá-lo com comida. Está-se reforçar o que lhe dá prazer que é mostrar que manda.

Portanto na relação com a comida o que menos está em causa é a comida em si mesma, mas o que ela representa de um contexto de vida emocional.

Caso 2

Rapaz, adolescente
Nunca namorou,  introvertido, tem poucos amigos, vive sozinho.

Veio para a terapia porque achava que tinha sido mal tratado por um familiar próximo e que isso o traumatizou. Sabe que passava muito tempo com essa pessoa depois das aulas. Lembra-se que essa era uma pessoa que fazia umas tostas muito boas, mas que depois o tratava como se fosse escravo. O ser escravo basicamente era pô-lo a fazer tarefas domésticas e depois era agressivo se ele não cumpria. Depois estava sempre a tentar manipulá-lo para ter dinheiro dos pais dele.

(Ao fim de 3 meses)
P- “Não ligo muito à comida, de vez em quando dá para me comer muitos doces, mas geralmente só petisco umas coisas de soja e coisas light, até porque tenho aqui umas banhas a mais…

Mas de qualquer das formas tenho ido mais ao ginásio e acho que me vou limpar disto. Agora a respeito, isto de vir aqui tantas vezes às vezes irrita-me porque no outro dia queria ter ido passear e saí daqui uns minutos mais tarde e já não consegui fazer o que queria…”

T- “Parece-me que tem medo que o alimento que leva daqui também seja pouco saudável e o faça sentir-se cheio de coisas más…”

P- “Pois, não sei se iria tão longe com esses termos, mas realmente às vezes é um bocado confuso para mim o que sinto aqui porque há dias que gosto imenso, noutros dias saio muito angustiado e não percebo se isso é bom ou mau.”
(…)

Pergunto então o que é não ligar a comida?
Ela comia tão pouco por não gostar do sabor, e não podia apreciar o sabor porque o ato de comer, desde os primeiros tempos, se vinculara a lembranças de repulsa cuja soma de afeto jamais diminuíra em qualquer grau; e é impossível comer com repulsa e prazer ao mesmo tempo

Paciente ao fim de 1 ano e meio de terapia
P- “Sinto-me muito estranho porque me apetece comer carne e tenho andado com muita vontade de comer chocolate, e eu não era assim. Quer dizer, de vez em quando comia um doce, mas mais nada”
T- “Já sabe o que dizem sobre a vontade de comer chocolates…”
P- “ha ha, pois… Mas isso não é sobre as mulheres? (…) mas também tenho sentido mais vontade de sair à noite”

Elementos em causa:
– Elemento comida.

Aspectos na relação com o elemento comida:
– corpo – controlo sobre o corpo
– autonomia
– intrusividade

Caso 3
Mulher Adulta
Procurou ajuda porque tinha sido diagnosticada pelo médico de família com depressão e bulimia e ele aconselhou-a a procurar ajuda psicológica.

Pedi-lhe para falar um pouco sobre ela e disse-me que era casada com o primeiro e único namorado, quem conheceu no primeiro ano fã universidade e tinha um filho que já frequentava a escola. Descreveu que tinha uma relação perfeita, mas que se sentia sempre triste. Considerava o marido uma pessoa bondosa e muito paciente, que não exigia nunca dela.
Explicou que vinha de uma família muito conservadora, tinha pais bondosos que sempre lhe transmitiram os melhores costumes e a ensinaram a ser uma boa menina. A mãe era quem estava sempre atenta à educação e a ensinava a ser uma boa dona de casa – cuidar do marido, cuidar dos filhos, ter tudo sempre muito limpinho e a comportar-se como uma senhora de respeito. Ao longo das sessões foi-se lembrando de como o pai era muito brincalhão quando ela era pequena, mas quando mudou de escola (quando entrou no 5o ano) a mãe começou a implicar com as brincadeiras, porque ela já tinha idade para ser séria, e o pai acatou a ordem. A paciente disse que ficou triste, mas compreendeu a atitude de ambos.

Quando mencionou este aspecto disse que na realidade sempre se lembra de der uma miúda triste. Tinha boas notas, sempre teve tudo o que precisou quando era pequena : “nunca me faltou cama lavada e pão na mesa!”

Ao longo das sessões ia dizendo o quão toda a gente em seu redor era perfeita e que não compreendia porque se sentia triste e que só sentia vontade de come, comer sem parar para se sentir cheia e se acalmar. Depois sentia-se mal e precisava de vomitar, tinha medo de ficar com barriga de grávida.

P/ Como a minha família sabe que sou gulosa e que isso me acalma às vezes dão-me tartes e bolos para eu me sentir melhor.

T -” Parece que essa comida a enche, mas não preenche…”
P- ” Quer dizer, sabe-me bem durante um bocado… Mas depois preciso de comer de novo”

T -” Imagino esses bolos com uma cobertura muito bonita, mas para precisar de comer tanto parece que o receio tem pouco sabor…”

A certa altura, ao longo da terapia, começou a aperceber-se que tinha maior tendência a vomitar quando acabava de comer os bolos que lhe ofereciam. “É engraçado, quer dizer, não tem graça nenhuma. Mas cada vez mais reparo que quando acabo de comer os bolos começo com náuseas e tenho que deitar fora aquilo”

T – “Deitar fora essas náuseas agri-doces?”

A um certo dia dizia-me: “É muito estranho, há dias em que sinto muito desejo pelo meu marido, e quando ele chega a casa fazemos amor, mas depois sinto-me culpada, como se tivesse feito algo de errado e aquilo deixa-me tão transtornada que se eu tiver comido antes não aguento nada dentro de mim”.

T – “A comida ou o prazer?”

Elemento em causa:
– Comida

Aspectos na relação com o elemento comida:
– joga com a sexualidade
– desejos
– ora quer, ora nao quer – ambivalência no desejo
– a questão nao passa tanto pelo corpo

Podemos ver que há sintomas transversais entre os pacientes e que correspondem com a descrição da OMS, contudo o contexto em que surgem e se mantêm os sintomas são bastante diferentes – logo os sintomas surgem depois do contexto e nao vice-versa. Quer isto dizer que não há quadros “puros” de anorexia/bulimia. Habitualmente surgem enquadrados em outros quadros clínicos.

A comida acaba por ser um meio de comunicação com o coração, não tanto com o estômago. Ou seja, os sintomas são uma expressão física daquilo que a pessoa não está a conseguir pensar com sucesso.

Podemos perceber então que nestes casos há elementos chave que acompanham a comida

No caso 1, temos uma situação em que a pessoa vive absorta na questão do abandono e da insegurança em si (que é um termo vago1).

A comida desempenhava uma função de controlo, quer isto dizer que a paciente a convencer-se de que não desejava comida, também não se iria sentir insatisfeita se fosse novamente abandonada. Rejeita para não ser rejeitada. Por outro lado vivia uma relação pouco afectiva e bastante funcional – procurava apoio, nem gostava muito dele. Sentia-se como que uma criança a quem não tinham ensinado nada.

No caso 2, percebemos que o que está em causa é ser invadido por uma coisa má, há o sentimento de falta de controlo sobre o próprio corpo. Há um reconhecimento de necessidade de ajuda, mas há um medo persecutório de que a ajuda vá ser intrusiva, como aquele alimento “perverso” que recebia do familiar.

No caso 3, o que está em questão passa por uma incapacidade de lidar com a identidade feminina, o sentir-se mulher desejante. Enquanto que nos quadros sem episódios bulímicos ha uma total rejeição do desejo, nestes casos há uma tentativa de lidar com ele. A paciente tinha-se sentido tão castrada enquanto mulher por todas as ideia conservadoras, por um pai que se afastou quando ela começou a ser mulher, que ela não se sentia com confiança suficiente para ser mulher. Além disso vivia confusa com estes bolos que lhe davam uma satisfação física, mas ficavam aquém das suas outras necessidades enquanto pessoa.

O que se observa é que o enquadre da perturbação despoleta-se na adolescência, mas a sua génese não é especifica desta fase, distribui-se por vários momentos do desenvolvimento da personalidade.

O por quê de ser na adolescência?

É uma fase de transição de uma posição infantil para uma adulta, logo há dilemas que vão surgindo ao longo do crescimento enquanto criança e são revividos de uma forma condensada – a imagem física e de individuação, novos afetos, sexualidade, autonomia/independência…

A comida é um dos primeiros prazeres da vida. Desempenha uma função fulcral na forma como as crianças associam prazer físico, com prazer afectivo.

Por que surge mais nas mulheres? Sexualidade é mais reprimida nelas, ha uma necessidade de separação maior da imagem materna porque os rapazes identificam-se com um novo – o pai. As mulheres vivem mais a identidade sexual no corpo, os homens no membro. Para os homens é mais fácil exteriorizar agressividade.

#5# Identificação de sinais que possam indicar risco

Os seguintes comportamentos podem indicar que o jovem tem um distúrbio alimentar. No entanto, nem todos os alunos com transtornos alimentares irá exibir esses comportamentos, e mesmo que um aluno apresenta algum destes sintomas, ele ou ela não pode ter uma doença – que deve ter cuidado ao aplicar isso como um guia.

* Ignorar refeições principais,
* Procura constante de snacks,
* Obsessão por alimentos que supostamente não engordem,
* Evitar comer em contextos sociais,
* Brincar constantemente com a comida durante refeições,
* Usar constantemente o WC depois das refeições,
* Observar variações consideráveis e constantes de peso ao longo dos meses,
* Tentativas repetitivas e falhadas de fazer dietas,
* Obsessão com a manutenção de baixo peso para melhorar o desempenho/aspecto físico
* Discurso constantemente centrado em questões de comida e corpo.
* Fadiga ou tontura
* Utilizar vestuário que disfarce as formas do corpo
* Calos e cicatrizes nas falanges (de meter os dedos na garganta)

#6# Prevenção/Gestão

Posto isto diria que a prevenção pode e deve ser feita nas escolas, na comunidade, com as famílias. O tratamento requer acompanhamento clínico especializado e multi-disciplinar.

PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO

A informação aumenta o conhecimento, mas a educação requer mais do que transmissão de informação.

A escola é um excelente veiculo para educar as crianças.

Podem ser introduzidas em determinadas aulas trabalhos que metam as crianças a procura de temas para poder falar com os professores, que de certa forma serão modelos.

Temas importantes a ser trabalhados são, por exemplo?
-Imagem do corpo
-Afetos
-Alimentação
-Projetos para o futuro
-Sexo e Sexualidade

É possível prevenir problemas deste foro sem sequer tocar na questão das perturbações alimentares.

As crianças e os jovens apenas precisam de vozes que os ajudem a traduzir-se.

2017-05-13T20:40:11+00:00