O Segredo não está na felicidade: está na tristeza!

A felicidade idealizada só leva à tristeza

“To love is to suffer. To avoid suffering one must not love. But then one suffers from not loving. Therefore, to love is to suffer; not to love is to suffer; to suffer is to suffer. To be happy is to love. To be happy, then, is to suffer, but suffering makes one unhappy. Therefore, to be happy one must love or love to suffer or suffer from too much happiness.” 
― Woody Allen

A felicidade é uma coisa que me chateia. Não no sentido de Woody Allen, em que perceber o sentido da vida é um tormento que rumina numa carreira de filmes, mas porque atualmente a felicidade é vivida como uma coisa-objeto-perfeito.

É uma coisa que assume várias formas –  engolir um comprimido milagroso, ler uma frase feita, #felicidade -, mas que habitualmente se resume a uma simples consequência direta de uma ação com conteúdo superficial – é uma coisa sem contexto e que não produz nenhuma história.

E todos os dias sou bombardeado com publicidade para comprar esta felicidade. E chateia-me bastante ser assediado para esta felicidade porque é um produto perverso.

Pode parecer um raciocínio paradoxal porque, sendo eu psicólogo, deveria ser apologista da felicidade. E sou, mas não desta!

A vida é um processo fluido no qual passamos por acontecimentos e relações que vão existindo no nosso presente ou persistindo na memória.

Este encadeamento de vivências que provocaram emoções – umas mais negras, umas mais cinzentas, outras bastante coloridas – é a história da nossa vida!

Quando nos perguntamos se somos felizes podemos responder “-Sim, sou feliz”, mas esta conclusão considera inevitavelmente também coisas más que nos aconteceram, no entanto, o balanço é positivo.

O problema da felicidade “coisificada” é ser um produto que depende de uma experiência sem contexto envolvente e tem que ser perfeita, sem coisas que frustrem ou que causem algum incómodo. Apesar de ser uma teoria bonita tem um limite: o limite da realidade. A vida não pode ser esquartejada, as coisas que incomodam não desaparecem apenas porque são ignoradas mentalmente ou porque se adota uma vida de reclusão (literal ou simbólica).

É importante não nos esquecermos que um copo meio vazio também está meio cheio, mas não deixa de ser um copo simultaneamente meio cheio e meio vazio!

Estamos condenados a viver situações que nos relembram que somos pessoas com limites e que não conseguimos controlar tudo com as nossas vontades ou ações:

  • As pessoas que admiramos também não sabem tudo nem nos conseguirão proteger totalmente do que nos assusta!
  • O mundo terá sempre acidentes e pessoas que tomam atitudes horríveis!

Mas, ao mesmo tempo, podemos dar-nos ao trabalho de ir aprendendo a aprofundar a relação com a vida: desenvolver amizades, a conhecer lugares novos e a lutar para contribuir para uma sociedade melhor. É um processo contínuo de valorizar o que reconhecemos como parte da nossa essência.

Para sabermos ser felizes, temos que saber estar tristes – quando reconhecemos o que nos incomoda podemos lidar com a vida de uma forma eficaz, e mesmo que o resultado não seja “perfeito” será certamente um balanço positivo!

Há alguns anos um paciente disse-me na última consulta que tivemos – “- Isto de estar mais forte e ter conseguido mudar a minha vida também é um bocadinho triste!” – e ele tinha toda a razão!

*Cartoon: Mafalda, Quino

2018-05-25T18:16:48+00:00