Já passou por momentos em que sentiu a sua mente tão saturada de ideias confusas que desconfiou da sua sanidade mental? Aproximando-se a data que assinala o Dia Mundial da Saúde Mental, 10 de outubro, aproveito para clarificar aquele que talvez seja o maior problema com as pessoas se confrontam: o preconceito.

Apesar de não existiram dados oficiais sobre a epidemia do preconceito, é recorrente encontrar na prática clínica pessoas que admitem que adiaram a procura de ajuda ou que escondem o facto de fazerem psicoterapia porque têm receio de passarem a ser tratados como malucos.

Embora vários factores influenciem este receio, o que me parece mais marcante é a forma como culturalmente o sofrimento emocional é considerado uma fraqueza – não se tem direito a sofrer!

Se antigamente existia uma cultura ‘proibitiva do sofrimento’, em que “homem que é homem não chora” e “mulher que sofre é histérica”, atualmente vive-se do mesmo mal mas no outro extremo, em que é cultura do ‘obrigatório estar bem’. São as teorias do esteja sempre feliz, não há razão para sofrer, pareça sempre bem, sorria para a selfie, etc.

Este receio também é revivido dentro do consultório quando as pessoas acham que o terapeuta vai desvalorizar ou rir-se das coisas que vão contar. “- Depois desta é que deixa de gostar de mim”, “- Sou mesmo doido não sou?”…

Pela natureza biológica da medicina, habitualmente associa-se o termo doença a ‘algo que está errado’. Em termos da saúde mental essa perspetiva não é funcional, talvez a forma mais simplista de fazer uma correção a esta perspetiva seria dizer ‘algo que ainda não está aperfeiçoado’!

O sofrimento emocional é, resumidamente, o resultado de uma dificuldade em encontrar estratégias de adaptação a uma ou várias circunstâncias de vida, e que pode estar a ser causado por razões que não dependem da pessoa. Por exemplo, uma pessoa pode estar deprimida porque tem dificuldade em entregar-se a outras pessoas, ou porque está rodeada de pessoas que a tratam mal.

O lado mais cruel do preconceito é que, surpreendentemente ou não, também está muito presente em técnicos que consideram as pessoas que procuram ajuda como indivíduos menos capazes e portanto satisfazem o desejo de se sentirem intelectualmente superiores trabalhando com as pessoas no sentido de controlar sintomas, investindo na “doença”, ou querendo impor teorias próprias que confundem com ciência, ao invés de investir no potencial da pessoa, ajudando-a a desenvolver as capacidades que já tem, para conseguir atingir os seus propósitos da forma mais eficaz possível.

Independentemente do ruído em torno do sofrimento mental, deixo a sugestão de não desvalorizar os seus sentimentos, são a ferramenta inata para ajudar a guiar-se na vida. Se é natural ter-se ajuda para aprender a andar, a contar, a ler, caso sinta necessidade de pedir ajuda não tenha vergonha de o fazer com quem tenha confiança!