Esvaziar a mente não cura o sofrimento

Crónica na Mood Magazine

Tem-se tornado crescente o número de pessoas que recorre à meditação como um processo de cura do sofrimento, com um suposto cunho de inspiração em filosofias orientais. Existem também técnicas pseudo-clínicas de meditação, algumas supostamente baseadas nesses princípios importados, que ajudam as pessoas a limpar pensamentos que são considerados perturbadores da mente. Tentar evitar sentir mal-estar, seja por esvaziamento mental através de supostas técnicas de meditação, seja por camuflagem do sofrimento através consumos químicos ou materiais, simplesmente não funciona.

Viver a meditação como uma técnica romantizada de não sofrer é simplesmente ineficaz, e atenta contra os princípios que a tornam útil quando vivida com o propósito para que foi criada. A meditação é um processo de introspeção assente numa linha de pensamento. Implica estudo e trabalho porque existem várias linhas de pensamento que devem ser percebidas para que possam ser praticadas coerentemente, algumas que talvez sejam mais sensatas e ponderadas do que outras. Meditar passa por abordar questões pessoais de uma perspetiva que poderá ajudar a lidar com algumas situações que potencialmente poderão gerar sofrimento. Consequentemente, para se pensar não se pode esvaziar a mente, pode-se quanto muito perspetivar e relativizar a forma como se abordam alguns problemas.

Esvaziar a mente evita que se sintam os problemas enquanto se “pseudo-medita”, mas não faz com que desapareçam: é o efeito aspirina, mas com efeito aditivo, porque como não tem um efeito transformador só alivia “enquanto a dose está ativa” e, portanto, tem que se tomar/praticar em doses pouco razoáveis.

Lidar com o sofrimento dá trabalho, implica perceber os problemas e criar estratégias de resolução, seja qual for a linha de pensamento que possa fazer mais sentido. Seja uma filosofia oriental ou de outra parte do mundo. O esforço para não pensar, de não entrar em contato com o sofrimento, só resulta no agravamento dos problemas e, paralelamente, na anulação da capacidade para também pensar em como investir no prazer.

Os sentimentos são um reflexo da relação com o que nos rodeia. Os problemas devem ser enfrentados para que possam ser resolvidos. Gastar energia para os tentar esquecer, camuflar ou anestesiar é um erro com consequências graves a longo prazo. Confie na sua capacidade para lidar com a vida e invista no que é importante para si!