Educar não é treinar

Coluna de Opinião na Mood Magazine

As crianças são esponjas de informação. Absorvem tudo, porque gostam e porque precisam. O mundo é uma fonte inesgotável de novidades e, ao mesmo tempo que se encontram coisas novas, é necessário aprender a lidar com o que se descobre, sejam objetos, lugares ou pessoas.

 

Apesar de a criança aprender por iniciativa própria, o processo de aprendizagem é intercedido essencialmente pela família e pelos professores. Este apoio é fundamental porque a criança nasce sem experiência e referências, no entanto, se a orientação não for feita com foco nas necessidades naturais da criança, mas como uma tentativa de compensar frustrações pessoais, corre-se o risco de transformar as crianças em soldados do conhecimento académico, máquinas de absorver livros e que não pensam pela própria cabeça.

 

Que frustrações pessoais são essas? A sobrevalorização dos resultados académicos, por parte dos adultos na relação com as crianças, surge quando se sente que o reconhecimento intelectual público é essencial para a realização pessoal. No caso dos pais, revela-se quando delegam nos filhos a função de provar que têm bons pais através das notas na escola. No caso dos professores, quando tentam produzir a melhor turma, não pensando no bem-estar dos alunos. No caso dos ministérios, a vontade de pavonear estatísticas às comissões europeias. Refiro este último caso porque, se há alguns anos as queixas eram exclusivas dos pais sobre os filhos que resistiam a estudar, atualmente são muitas as queixas dos pais sobre a quantidade de TPCs que são “prescritos” pelas escolas, o que torna impossível ter tempo de família porque se consome imenso tempo a ajudar os filhos a estudar e a fazer catrefadas de trabalhos.

 

Os manuais não são a única fonte de conhecimento, nem são oportunos a todas as idades. É preocupante a frequência com que se tenta ensinar crianças em idade pré-escolar a ler e a contar, com o objetivo de elas “irem para a escola melhor preparadas”.  As crianças precisam de aprender a brincar antes de aprender a estudar. Precisam de saber utilizar a imaginação para criar histórias, reinventar objetos e compreender como pensar pela própria cabeça. Precisam de participar em brincadeiras para compreender como interagir com os colegas, para perceber o significado de respeito, limites, amizade e valores que só se integram em relação. Só depois de sentirem que têm relações que lhes dão prazer e segurança e de perceberem que têm tempo para ser crianças terão paciência para enfrentar a escola e todas as lições que implicam estar quieto e concentrado.

 

Pode ser mais fácil lidar com as crianças se elas passarem a maioria do tempo em posição de formatura, sentadas e direitas a estudar, sem perturbar! Mas não é o cenário mais benigno. Por vezes, até pode ser preferível pontualmente proibir a criança de fazer TPCs caso se perceba que estão a ter um efeito destrutivo para a mesma, deixando-a demasiado cansada, sem tempo para mais nada. Não é uma lição de escola, mas é uma lição de vida: aprende a cuidar de ti e da tua saúde!

 

Preocupa-se com as suas crianças? Ensine-as a ser felizes, que elas logo aprenderão a ser inteligentes!