Os espaços que cada pessoa frequenta tornam-se inevitavelmente nos locais onde cada um se exprime e se dá a conhecer. No decorrer da vida há espaços que se alteram e novos que surgem, há deles onde se passa muito tempo e outros nem tanto. Naturalmente, consoante aqueles onde se permanece determinadas características individuais se farão notar. Por exemplo, no adulto poderá no local de trabalho, de uma forma mais ou menos expressa, consoante o emprego for mais ou menos em grupo, com crianças é em contexto escolar que se pode observar o seu modo de “funcionar”. Os maiores desafios para um indivíduo prendem-se com as experiências novas, seja a exploração de novos espaços, estudar novas ideias, relação diferentes pessoas… Como dizia Darwin, os que sobrevivem não são os mais fortes, mas os que se adaptam, e é no abarcar do “novo” que as ferramentas internas das pessoas são postas em teste, quanto maior for a segurança interna e flexibilidade, mais feliz será a pessoa.

 É no contexto escolar (infantário ou primeiro ciclo), que as crianças são confrontadas pela primeira vez com um novo conceito de relações humanas, – diferente da até então maioritariamente com a família, e com uma nova forma de relação com o meio – a exploração cognitiva do mundo.

A primeira relação da criança com o mundo processa-se principalmente a um nível sensorial – cheiros, sons, imagens, temperaturas, texturas, etc. Estas sensações derivam do contacto com, entre várias outras coisas, objectos, alimentos e principalmente das pessoas com quem se relacionam habitualmente. É nesta relação que a criança desenvolve uma noção, ainda um pouco abstracta, de segurança, conforto, e começa a conhecer o próprio corpo e os próprios desejos, e durante este processo as experiências podem ser sentidas de uma forma que se poderia descrever como espectro entre gratificantes e aterrorizadoras. Uma vez que a criança está numa fase em que praticamente todos os estímulos são sentidos como algo novo e não há propriamente um processamento cognitivo das vivências, a curiosidade pelo funcionamento das coisas apenas começa a desenvolver-se por volta dos 3/4 anos – a idade dos porquês! – e concomitantemente começa a desenvolver-se a capacidade de as questionar, que será bastante trabalhada com a entrada na escola aos 5/6 anos.

 Poder-se-ia comparar esta evolução como um primeiro treino de futebol em que na primeira parte a criança vai brincar livremente com uma bola e no intervalo o treinador ajuda-a a pensar nas coisas que fez. É neste momento de avaliação que a criança toma uma maior consciência do que sentiu e agiu durante a brincadeira e, da mesma forma, é na escola que a criança ao ser estimulada cognitivamente que será confrontada com as emoções das vivências que fazem parte da sua pequena história de vida.

Por vezes algumas vivências da criança estão para lá daquilo que ainda tem capacidade de compreender, outras provocarão sensações e emoções fortes demais para aquilo que estaria preparada para tolerar, e este choque entre as suas capacidades e as suas vivências provoca sofrimento na criança, ao qual cada criança irá reagir de formas diferentes consoante a sua personalidade e é nesta reacção que se podem observar estratégias eficazes de adaptação ou sintomas de sofrimento emocional.

Os sintomas emocionais – dificuldades de concentração, ansiedade motora, medo do contacto social, etc. -, em contexto escolar, provocam dificuldades no processo de aprendizagem e a evolução académica da criança pode ser comprometida. A maioria das dificuldades escolares das crianças são uma consequência de sofrimento emocional, e não são distúrbios cognitivos inatos – o sintoma é uma causa de sofrimento, e não uma consequência. Para a comunidade escolar é importante ter em conta esta questão porque determina a forma como se vai olhar para a criança – ou uma criança doente que precisa de ser curada, ou uma criança que está a sofrer e precisa de ajuda.

O apoio a um aluno que manifeste sinais de sofrimento emocional deve ser diagnosticado por um especialista em saúde mental, uma vez que é bastante frequente incorrer-se apenas por um tratamento farmacológico e muitas vezes incorrecto. Uma criança que não consegue compreender o que está a sentir necessita de alguém que a ajude nessa tarefa, e não de alguém que a drogue para não incomodar.

Na escola serão os professores e auxiliares as pessoas que, dado o tempo que contactam com a criança, terão oportunidade de detectar sinais de alerta nas crianças, sendo os mais frequentes:

  • Dificuldade constante em manter a concentração (não confundir com distracções pontuais, é normal uma criança não conseguir estar um dia inteiro com paciência para estar focada num quadro!);
  • Recusa no contacto com os colegas;
  • Dificuldade em expressar por palavras os sentimentos;
  • Agressividade para com os colegas e adultos;
  • Atitude de pouco interesse nas matérias e nas brincadeiras;
  • Incapacidade em manter o olhar na conversa com as pessoas;
  • Episódios de choro compulsivo sem causa aparente;
  • Perda do controlo dos esfíncteres ao iniciar as aulas.

Estes elementos não devem ser interpretados individualmente nem considerados sinais de alerta imediata se apenas forem episódios esporádicos, principalmente no primeiro trimestre de escola, uma vez que é normal existir um período de adaptação a novos contextos. Caso sejam observados num contexto cuja avaliação suscite alerta para o adulto, deve iniciar-se um contacto com os pais para compreender se a reacção da criança se refere a um evento em particular e, caso necessário, fazer o encaminhamento para um profissional especializado em crianças – pediatra da criança, psicólogo ou pedopsiquiatra.