A capacidade de gerar vida releva incontestavelmente o sexo feminino a uma posição de valor ímpar. A maternidade é um cargo que determina uma nova forma de viver, uma reorganização em função de alguém que durante uma boa quantidade de anos depende totalmente de uma pessoa que o cuide, e pela envolvência que é criada entre mãe e filho, desde a gestação, tipicamente é ela que ocupa esse cargo durante uma boa parte do tempo.

Será talvez por essa particularidade que também é uma posição ingrata, porque é necessário fazer imenso, mas apenas em doses suficientes. Não se deve amar de menos, porque sem afecto a criança não descobre o sentir, não se consegue sentir segura para descobrir o prazer de viver, o prazer de descobrir e a graça de se perceber. Não se pode amar demais, porque um amor sem fim não permite desemparelhamento, e mesmo depois de saído da mãe não chega a ter hipótese de nascer, porquanto esse seguimento não se desenrola pela separação, mas pela individuação.

Ser mãe é acima de tudo uma arte, requer mais do que ser a divindade que deu à luz, postula uma função de ajudar a criança a aprender a ser autónoma. Para aceitar a emancipação daquele ser que durante nove meses viveu dentro do ventre é necessário aceitar perder uma parte de si própria, abdicar do desejo de alguém que viverá em função do agradecimento pela vida que lhe foi dada.

No encontrar deste equilíbrio ergue-se a necessidade da mãe também se reconhecer a ela própria como alguém que vai além do papel que a ocupa  para o filho, é uma posição que ela também, mas não só, é.

É uma dança em que durante o tempo necessário se faz missão da vida ensinar o paceiro dançar, no fim é inevitável deixá-lo ir embora e, ainda assim, conseguir sentir mais amor do que posse.