O complexo de Electra invoca o mito grego em que ela planeia a morte da Mãe no sentido de vingar a morte do Pai. Pela carga de afecto que no mito a personagem tem pelo Pai, a Psicanálise utilizou o termo para as meninas,a fim de contrapor o Complexo de Édipo habitualmente usado para os rapazes.

Esta é uma fase que ocorre em todas as crianças do sexo feminino aproximadamente entre os 3 e os 5 anos. Nesta fase de desenvolvimento a criança começa a autonomizar-se, deixa o estado de dependência absoluta da mãe e começa a competir pela atenção do Pai.

É um fenómeno de construção da sua personalidade que se manifesta através de um comportamento de imitação do modelo mais próximo que é a Mãe, na tentativa simbólica  de a destruir e ocupar o seu lugar: brinca com bonecas, pinta-se como a mãe, veste as suas roupas, tudo para conquistar aquilo que mais deseja, o Pai.

É necessário ter presente que esta é também uma componente do desenvolvimento da personalidade das crianças e que os seus primeiros amores são os pais. Sendo que o primeiro amor que a criança experiência é o da mãe, esta tentativa de conquista é vivida com uma tónica e dimensão infantil e não um enredo de adultos.

Longe de ser um problema é uma manifestação natural do desenvolvimento das crianças do sexo feminino. As meninas não vivem apenas o que acontece na realidade mas também o que imaginam e supõem. Por isso o que a criança procura de facto não é a consumação do acto mas sentir-se desejada, sentir que existe.

É aqui que o comportamento dos pais é determinante, cabe-lhes elaborar o que ela vive e ajudá-la a perceber que o desejo de querer ser mulher não implica ter que ser como a mãe, nem a mãe. Ela tem já o seu papel enquanto filha e um dia encontrará  o seu príncipe. Não devem ser encorajadas fantasias de namoro com os pais. O Pai deve admirar a filha e mostrar-lhe que um dia terá um namorado só dela. Se a criança se sentir interessante o suficiente no papel de filha senti-lo-á também enquanto mulher.

A sedução nas mulheres ensaia-se com o Pai e pratica-se com o parceiro. Clinicamente pode afirmar-se que um Pai que não se dedica à sua filha a deixa sem armas para o futuro amoroso fora de casa.

Esta é a principal diferença entre o Édipo e Electra. O rapaz continua a amar alguém do sexo oposto e identifica-se ao do mesmo sexo – sou como tu, meu pai, hei-de amar uma mulher como amas a mãe, porque essa já tem dono. A rapariga tem que mudar o objecto de amor, se ela mantiver o mesmo, tentará identificar-se com o pai e a masculinizar-se. Para a rapariga ser mulher, precisará de se identificar com a mãe, rivalizar com ela, terá que perder simbolicamente o amor da mãe, o afecto transmuta-se, no rapaz transfere-se. Assim o pai interfere na construção da identidade sexual mais na menina do que no menino. O rapaz só tem que ser homem como vê o pai ser. A menina tem que perder o primeiro amor com a mãe.

Quando a rapariga não consegue construir uma ideia de si como alguém suficientemente interessante para conquistar uma relação conjugal ou ser segura o suficiente para não se sentir ameaçada na relação com outras mulheres diz-se que o complexo não foi superado.

A falha do complexo de Electra pode ter origem na dinâmica de relação de uma Mãe muito possessiva face ao Pai, em que a criança não consegue ter espaço para se sentir interessante para o pai. No futuro poderá vir a ser uma mulher com uma relação muito competitiva face a outras mulheres.Em contraponto, se a mãe for uma pessoa com uma personalidade extremamente passiva, que faça a criança sentir que nem a mãe capta a atenção do pai, no futuro esta pode vir a ser uma mulher extremamente insegura.

O complexo  é superado quando as crianças se apercebem que não reúnem todas as condições para serem perfeitas para o Pai enquanto o seu mundo se alarga e passa a ser construído por elementos exteriores à família. Mais importante do que o olhar do Pai e o modelo da Mãe é a forma como a criança se olha e deseja a si própria.

Estes Complexos (Electra e Édipo) revestem-se de especial importância, uma vez que a forma como são vividos e superados, vão condicionar a emergência de patologias do espectro da neurose tais como a histeria,  o narcisismo ou o transtorno obsessivo compulsivo. Daqui se evolui para o sofrimento que é vivido numa fase adulta nas dificuldades das relações interpessoais.