Este texto foi escrito na sequência da participação televisiva no Programa Boa Tarde (SIC) – “Agredida na Escola”, enquanto um resumo de pontos importantes sobre o tema em questão. Os conteúdos aqui apresentados não pretendem ser uma abordagem extensiva, mas antes um ponto de partida para desenvolvimentos futuros.

 O que é o Bullying?

A Organização Mundial de Saúde descreve o bullying como:

 

"Bullying is a multifaceted form of mistreatment, mostly seen in schools 
and the workplace. It is characterized by the repeated exposure of one 
person to physical and/or emotional aggression including teasing, name 
calling, mockery, threats, harassment, taunting, hazing, social exclusion 
or rumours." ((1)) / ((2))

 

 

Considero esta definição correta enquanto descrição do ato de bullying, embora não considere que descreve a questão na sua génese.

Neste sentido parece-me necessário lançar novas questões, que exploro seguidamente.

Causas?

Esta questão divide-se duas dimensões: por parte do agressor e por parte da vítima.

Há que fazer uma distinção de duas situações:

O agressor reativo e a vítima circunstancial

O agressor caracterial e a vítima recorrente – bullying, na verdadeira aceção do termo

-1-

É frequente existirem jovens que quando do confrontados com situações de vida que os fazem sentir-se ameaçados despertam reações agressivas que podem ser dirigidas para adultos ou outros jovens, que também esses podem ser são vítimas de uma agressão pontual, apesar de não serem crianças que habitualmente não se tentem defender e que sejam um alvo recorrente de agressores. Este enquadramento é facilmente explicável com um exemplo: o nascimento de um irmão pode fazer com que o primogénito sinta a sua posição de exclusividade com os pais ameaçada, fazendo com que essa ansiedade seja descarregada agressivamente direcionada contra o irmão ou um colega fisicamente mais frágil que fortuitamente tenha uma atitude que irrite o jovem visado. Como resultado deste alerta, os pais podem reassegurar (de diversas formas) que o primogénito continuará a ser amado da mesma forma mesmo tendo um irmão, reação que progressivamente acalma o jovem e ele não volta a agredir ninguém.

Esta situação, embora tenha atos em comum com a problemática do bullying, não corresponde ao mesmo enquadramento.

-2-

É esta recorrência de papéis que define a essência do bullying: atores que se mantém recorrentemente numa mesma posição.

As vítimas tendencialmente apresentam características que, embora não se limitem às seguintes, são as mais relevantes:

Têm características (físicas e de personalidade) que correspondem a estereótipos sociais preconceituosos: raça, orientação sexual, aspetos físicos ou de vestimenta, ou têm resultados escolares superiores.

Passam muito tempo sozinhas ou aparentam ter poucos amigos.

Têm baixa autoestima e por isso sentem mais dificuldade em afirmar-se perante os pares.

Os bullies são crianças também elas muito inseguras, mas por razões diferentes das vítimas das crianças que atacam. Apesar de terem uma autoestima baixa, interiorizam a noção de que ferramenta mais eficaz que têm para compensar esse sentimento é a força e por isso fazem valer-se dela.

As agressões que exercem são tipicamente descritas como “sem razão nenhuma…”. É uma afirmação verdadeira se tivermos em conta que as vítimas raramente têm um papel provocatório para com o agressor, contudo há uma razão em particular que é transversal aos agressores: atacam vítimas em que eles reconhecem características que invejam – boas notas, roupas “de marca”, ou, simplesmente, atacam alguém mais fraco fisicamente para assim compensar a autoestima frágil.

Tipicamente são crianças que têm problemas familiares em casa e consequentemente pouco acompanhamento parental. Desta falta de proximidade parental, perde-se uma função essencial para o crescimento saudável das crianças: gestão de limites. Esta gestão não se refere à imposição de regras supostamente pertencentes a uma “boa educação”, mas sim a uma atitude parental pedagógica que transmita à criança os perigos e vantagens de algumas decisões, para que a criança se sinta protegida e orientada, e não castrada e desorientada, apenas com recurso a técnicas de sobrevivência primárias como a agressividade e omnipotência.

O termo ‘problemas familiares’ não deve ser interpretado pejorativamente nem associado a famílias de rendimentos inferiores. É uma questão que pode ir, por exemplo, de um casal parental que vive absorvido por problemas laborais e tem pouco tempo disponível para estar em casa, até uma família com questões de criminalidade associadas.

Valências

Pode descrever-se em três eixos:

Físicoé mais frequente nos rapazes e passar por agressões físicas como socos, pontapés, empurrões ou roubos.

Verbal ocorre principalmente nas raparigas, ou nos rapazes como uma antecipação do confronto físico. Passa por ofensas, difamação, lançar boatos.

Cyberbullying – semelhante ao verbal, mas através de meios como redes sociais, SMS’s ou chamadas telefónicas.

Quais os Sinais de que uma criança pode ser…

 A) Bully

São crianças que procuram a sua afirmação através pelo negativo: ao invés de lutarem por eles, lutam contra os outros. Atacam nas vítimas características que são fonte de insegurança para eles próprios – atacam o betinho porque têm inveja das boas notas.

Têm um pensamento preconceituoso

Têm dificuldade em cumprir regras

4) Vêm a violência como algo positivo

5) São prepotentes e consideram-se autossuficientes

B) Vítima

Medo de ir à escola

Vontade de mudar o percurso para a escola

Discurso centrado em torno de um “colega mau”

Sintomas físicos como ansiedade, vómitos, insónias, dor de estômago, diarreia, enurese, febres, taquicardia, dores musculares, pesadelos.

Como reagir sendo familiar?

Com a vítima não se deve dramatizar. Ser direto ao assunto, perguntar o que a criança está a sentir e dizer-lhe o que, como responsáveis vão fazer. Que ela não precisa de ter medo.

Com o agressor não se deve ter uma atitude agressiva, mas responsabilizante e no sentido de instalar limites. Perguntar o que se passou e desconstruir o que o leva a andar tão agressivo.

Como reagir sendo vítima?

Quando houver provocações verbais ignorar e não assumir os argumentos como válidos, ou caso não se esteja sozinho lidar com humor

Quando houver uma insinuação física transmitir uma postura de firmeza e dizer ao bully para parar com aquilo e sair da situação, sem ter uma atitude provocatória para com ele.

Também deve sempre dar conhecimento da situação a um adulto: familiares, professores, auxiliares educativos, etc. Nunca se deve ceder à ameaça de agressão caso haja denúncia: a denúncia é sempre um ato de coragem e um exemplo a seguir.

Quais as consequências do bullying?

Para o Bully

1) Exclusão social;

2) Comportamento desviante;

3) Problemas no rendimento escolar

Para a Vítima

Lesões físicas

Em termos emocionais o primeiro impacto tende a ser de medo de ir à escola e perda de rendimento, o que é normal dadas as circunstâncias; contudo a fixação destes problemas depende de:

Segurança que a criança tem no ambiente familiar. Se a criança se sentir apoiada os medos desaparecem rápido.

Se a comunidade escolar também reaje o trauma é menor

Se o bullying é continuado e não episódico, e a criança já acarreta problemas emocionais pode:

Idade: < 10a “o que fiz de mal, que problema tenho” / + 10a “o mundo é mau, as pessoas são todas assustadoras

Consoante o tema pelo qual se sente agredida, se toca em feridas que a criança já traz dentro dela então pode ter consequências afetivas graves. Em casos extremos pode levar a que a criança adote comportamentos agressivos perante outras crianças ou contra ela própria.

[hr]

 ((1)) Olweus D. Norway. In: Smith PK, Morita Y, Junger-Tas J, Olweus D, Catalano R, Slee Pl, editors. The nature of school bullying: a cross-national perspective, 1st edition. London: Routledge; 1999. p. 31.

 ((2)) Einarsen S, Hoel H, Zapf D, Cooper CL. The concept of bullying at work. In: Einarsen S, Hoel H, Zapf D, Cooper CL, editors. Bullying and emotional abuse in the workplace: international perspectives in research and practice, 1st edition. London: Taylor and Francis; 2003. p. 6.