As emoções não deviam ser coisas

Crónica na Mood Magazine

A revista ‘Courrier’, na edição de janeiro de 2016, publicou um artigo original do ‘The Wall Street Journal’, em que a autora, Laura Berman, menciona uma previsão de que “dentro de 10 a 15 anos haverá robôs de um realismo inacreditável com quem podemos trocar carícias ou fazer amor”.

Brinquedos sexuais realistas não são novidade. Já existem acessórios com revestimento de materiais cuja textura se assemelha à pele humana, alguns que até podem ser ligados ao computador para que um utilizador remoto possa gerir a vibração e sucção do dito cujo. Ainda mais complexo, existem bonecos e bonecas de tamanho real com detalhes hiper-realistas, chegando ao pormenor de poder-se substituir os penteados e o tipo de pelagem genital.

Os robôs, sendo um avanço tecnológico, na medida em que supostamente terão autonomia para serem interativos, são um retrocesso civilizacional, segundo me parece. Não pelo papel que podem cumprir na realização de fantasias sexuais, mas pela função perversa que podem desempenhar na substituição completa da experiência humana.

Trocar carícias e fazer amor são ações cientificamente impossíveis de realizar com robôs, porque dependem de uma intenção, de um sentimento. Os computadores não têm sentimentos, têm software. Talvez se consiga interagir através de toques e realizar uma descarga sexual fisiológica, mas apenas isso.

O modo de vida consumista iniciou-se com o principio de que a compra de determinados bens melhoraria a qualidade de vida. Entretanto houve a progressão para um estilo de vida adotado massivamente, em que a relação com a vida passa a ser baseada na satisfação de impulsos através de objetos. É a sociedade da toxicodependência, não de químicos, mas de uma relação tóxica com coisas. O que é pior, porque se valida veneno por remédio.

A necessidade de obter satisfação por consumo cria dependência, como é sabido. Deve-se ao facto de serem prazeres vazios, que satisfazem as pulsões mas não alimentam as emoções, que são o elemento chave para o sentimento de realização pessoal. Como é uma satisfação efémera que degenera em ansiedade, exige uma repetição frequente da experiência para obter nova sensação de excitação.

Uma experiência gratificante, como a partilha de tempo com amigos, ou fazer amor com uma pessoa em vez de interagir com um robô, cria boas memórias que geram uma sensação de prazer duradoura, uma boa memória que perdura ao longo do tempo e traz uma sensação de “paz emocional”.

As emoções vêm da relação entre pessoas, a utilização de coisas provoca sensações. Pensar inversamente é doentio e é um atentado à natureza humana.

Sente falta de emoção na sua vida? Abrace novas experiências e deixe-se de coisas!