Abdicar do divórcio pelos filhos?

Coluna de opinião na Mood Magazine

Já se sabe que não há relações perfeitas e algumas chegam a tornar-se críticas pelos conflitos e pela incompatibilidade de diferenças entre o casal.

Quando a possibilidade da separação surge, e quando o casal tem filhos, a decisão sofre um agravamento porque não é uma ponderação fácil o balanço entre o que será melhor para os pais e o que será melhor para os filhos. Mas será realmente bom para as crianças os casais abdicarem do divórcio pelo seu bem-estar?

É verdade que ser pai implica muitas vezes abdicar-se de coisas que se gostaria de fazer para que os filhos possam ter algo melhor, mas abdicar de situações não é abdicar de si. Cuidar também é ensinar as crianças a ter e a lutar por uma vida feliz com relações saudáveis. Não precisam que lhes ensinem que ser adulto é ser infeliz! Há adultos que nunca foram ensinados a ser felizes, embora o conceito possa parecer óbvio. Os pais, em primeiro lugar, são pessoas com necessidades e desejos e precisam de ter uma vida própria realizada.

Quando a relação conjugal não é funcional, os adultos não são pessoas emocionalmente estáveis. E adultos instáveis não conseguem ser pais capazes de cuidar. Se o casal vive uma dinâmica em que o conflito é recorrente, a vida da criança deixa de estar preenchida por uma vida familiar tranquila e segura. A qualidade da forma depende do conteúdo e uma aparente estrutura familiar, que na prática é disfuncional, não é uma mais-valia nem para a criança, nem para para os adultos.

O impacto que uma nova realidade terá nas crianças, como a mudança brusca no seu dia-a-dia, é uma das maiores preocupações. Mas há uma diferença entre viver em função do medo dos filhos e de possíveis cenários e adaptar as crianças a um novo contexto, que será tanto mais natural quanto a autoconfiança dos pais na tomada de decisão. A separação dos pais nunca será um trauma se os pais não se demitirem do seu papel. Haverá trauma sim se os pais sujeitarem a criança a um lar em conflito permanente.

O divórcio é um assunto complexo que envolve muitos sentimentos e muitas mudanças. Se o casal tem vontade de lutar por um lar saudável para os filhos, então deve lutar pelo casamento. No entanto, se é claro que a relação não funciona, abdicar do divórcio não é uma decisão pelo bem-estar dos filhos, mas uma decisão tomada em função dos medos dos próprios adultos.

Adultos realizados e felizes consigo próprios são pais mais disponíveis para as crianças, mais interessantes e mais interessados. E é essencialmente disto que o bem-estar das crianças depende.