Raramente tenho tempo para programas culturais durante a semana e, quando tenho, tento rentabilizar ao máximo, aproveitando para actualizar programas que tenho em atraso. Nestas circunstâncias, poucas são as vezes que me aventuro num programa imprevisto e recentemente esse foi o caso.

No dia 8 de Abril de 2015 o Cinema Ideal apresentou a ante-estreia do documentário O Sal da Terra, sobre o trabalho de 40 anos do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que esteve presente para explicar a origem do seu trabalho.

Homem sobre quem eu sabia pouco, revelou-se um ser humano sem fim, cujo trabalho destrói o significado da expressão “uma imagem vale mais que mil palavras”. Para descrever a densidade e profundidade da história detrás de cada fotografia de Salgado, mil palavras não chegam.

As imagens que capta são apenas o título de vidas e histórias presenciadas e partilhadas ao longo das suas viagens, que foram desde tribos que ainda vivem de acordo com culturas centenárias, até povos que são desumanizados pela tecnologia, cataclismos como a guerra da Chechênia ou o genocídio do Ruanda.

Rwanda – Sebastião Salgado

Genesis - Sebastião Salgado

Genesis – Sebastião Salgado

Para além do trabalho fotográfico que transmite, no documentário aborda, enquanto partilha de um processo emocional pessoal, um tema que é muito presente na reflexão psicanalítica: a capacidade de integração de experiências boas e traumátiacs. Salgado partilha que a certo ponto da sua carreira se tornou quase insuportável lidar com os terrores que presenciou. Passou por um período de desmotivação profissional: “Tinha a alma doente (…). tinha perdido toda a fé na humanidade”, desabafou.

Ao longo de vários meses após o regresso ao Brasil por motivos familiares, e por sugestão da sua esposa, este homem iniciou a replantação dos 600ha de terra que se tinham tornado áridos com o tempo (fundou o Instituto Terra).

A destruição combate-se construindo

Após muita insistência, e vários milhões de árvores plantadas, este projecto de reconstrução tornou-se uma nova fonte de inspiração para Salgado, que sentiu que só construindo coisas novas conseguia acalmar as descrições que tinha visto – percebeu que a destruição combate-se construindo!

Houve documentários que me surpreenderam de muitas formas, mas o homem deste comoveu-me profundamente. Salgado tem uma história de vida que se confunde com a vida da humanidade e, felizmente, teve a gentileza de a partilhar.

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Sebastião Salgado